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Ferias escolares: o dilema de pais e professores

Posted by Cecilia Iacoponi Hashimoto on July 29, 2010 at 1:53 PM

 

Cecília Iacoponi Hashimoto

Estive em um Congresso, como palestrante, nesta semana.

Meu tema versava sobre a brincadeira enquanto recurso para aprendizagem na educação infantil.

Após a apresentação, tivemos um debate muito rico, com assuntos variados, que tratavam desde a influência da mídia na educação infantil, até como estabelecer limites, para a criança, frente ao uso do computador.

Lá pelas tantas, um professor lançou mão de uma questão fundamental, que não estava no contexto da brincadeira, mas de total relevância. “É importante ter férias, no berçário e na educação infantil”?

 

Esta pergunta provocou muitas reações na platéia e, conforme íamos discutindo e levantando pontos de reflexão, a discussão ficava mais calorosa.

 

O período de férias escolares que, pela lei, deve prever um mês de descanso, tanto de alunos quanto de professores, podendo ser dividido em duas partes, metade-julho/ - metade-janeiro ou três semanas em julho, e uma semana  em outro momento, tudo depende do acordo que é feito na instituição em que se trabalha, privilegia, também, a possibilidade de os pais ficarem mais próximos de seus filhos, se não todo o tempo, mas em tese, pelo menos, por alguns dias.

Viagens são planejadas, outras vezes crianças visitam os avós que moram distante, recebem parentes, entram em contato com diversas experiências que, na escola, muitas vezes não acontecem , enfim, é um momento da família. Crianças que não vivem com o pai ou a mãe, por motivo de separação, tem a oportunidade de passar mais tempo com um deles.

Mesmo ficando em casa e não viajando, é hora de se recolher, mudar de assunto, dar um tempo para a rotina e os afazeres escolares, aproveitar o lar, os brinquedos, a boa comida caseira, os amigos ...

 

A preocupação deste professor foi instigante pois na sua realidade, no período de férias, as escolas continuam a trabalhar com alunos.

Mais do que a preocupação com férias ou não férias, o que me chama a atenção é o fato de a criança crescer apenas com a referência escolar, ou seja, viver na escola.

 

No período que seria de férias, fica na Colônia de Férias da escola (nas escolas que oferecem). Estas colônias são conhecidas popularmente como “sossego da mamãe”: enquanto o filho está lá, ela não precisa se preocupar!O que significa, então, férias para esta criança? Será que ela não percebe que há amigos que não vão à escola neste período?

 

E o acordar mais tarde, dormir na própria cama, os cheiros e sabores próprios de sua casa, seus brinquedos, escolher com o que vai brincar, o que vai vestir, sem ter que se arrumar para mais um dia de escola e cumprir as rotinas do cotidiano escolar?

 

Muitas mães deixam seus filhos na escola, nas férias, pela falta de opção de deixá-los com outra pessoa, e por que trabalham no período das férias escolares, não conseguem conciliar agendas e horários. Esta premissa é bastante discutível... Até que ponto estas famílias não conseguem se organizar ou mesmo proporcionar para seus filhos um estar em casa, com outro adulto responsável, de maneira que ele fique no lar e aproveite o que o mesmo lhe proporciona?

 

E o que dizer dos pais que, mesmo estando de férias, mandam seus filhos pequenos para a escola? Como fica a união familiar, o elo de ligação, a cumplicidade familiar, o conhecer o outro, a rotina da casa, o estar com os pais?

 

Ouvimos, freqüentemente, de pais assoberbados, que não agüentam ficar de férias com os filhos em casa, que não sabem o que fazer e que esperam ansiosamente pelo início das aulas!

Você já deve ter observado bem o que acontece com crianças que não tem este contato com os pais: ficam sem limites, “sem noção”, como dizem os adolescentes. Sem modos, respeito e educação. Sem ética!

 

Faça um teste: vá a qualquer Shopping Center, à tarde, num final de semana, sente em um banco e observe as famílias com crianças pequenas: o que você vê?

Salvo raras exceções que, mesmo tendo uma vida difícil em termos de trabalho e tempo, conseguem equilibrar a equação filho + atenção + educação + amor = criança ética, a grande maioria (são os chamados pais de final de semana), na ânsia de suprir o que não deram aos filhos, oferecem tudo no campo material, menos o essencial: afeto, amor, atenção, educação.

Estes pais são os primeiros a perguntar se a escola fecha nas férias, e se tem um programa de recreação ou colônia para que os filhos possam participar.

 

As perguntas que fazemos são:

 

“Como estão sendo criadas estas crianças? Para que mundo? Que leitura estas crianças estão fazendo desta atitude de seus pais? A responsabilidade do período de férias é da escola?”

 

No fundo, a família está perdida. Não sabe o que fazer, para que lado caminhar. Deposita na escola funções que dizem respeito ao âmbito familiar, mas que não dão conta de abarcar, por inúmeras questões.

 

Pelo nosso ponto de vista, a criança pequena precisa da referência familiar para crescer com estas estruturas mentais, afetivas, sociais, relacionais, construídas na/pela família, de maneira a tornar-se um adulto mais centrado para o mundo que o espera. O desafio está lançado!

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8 Comments

Reply Silvana de Oliveira
3:33 PM on July 29, 2010 
Achei muito interessante o texto sobre as férias escolares. Acredito muito, sem demagogia alguma, que só temos um caminho para uma sociedade melhor, ou seja, união escola e família. Porém é necessário que cada uma tenha claro sua função e participação na formação da criança (cidadão), não há como transferir responsabilidades. As férias são essenciais, pois será mais um momento para vivenciar e resgatar valores legítimos. A família é que nos faz sentir que não estamos sozinhos, esse acolhimento é necessário para construção do "eu" e posteriormente do "nós".
Reply Júlio Della Corte
4:49 PM on July 29, 2010 
Prezada Cecília, de fundamental relevância esta discussão , até mesmo porque no mundo capitalista/do trabalho, faz parte o período de férias. Se a escola tem por missão educar e educar para cidadania, "férias" é quesito pertencente a este mundo cidadão. Cabe ressaltar ai que pais de final de semana sempre (ou quase sempre, infelizmente) o serão: acordarão tarde para esse possível periodo de descobertas que se chama "férias escolares". Ah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Reply Marcos
6:01 PM on July 29, 2010 
Ci, muito pertinente suas colocações. Eu como especialista em empreendedorismo, considero fundamental as férias, mas sob outra abordagem, a de que precisamos sempre explorar oportunidades para sair da rotina, para enfrentar incertezas, indefinições e quebras de procedimentos que nos colocaram em estado de suspensão.
Reply Renata
10:58 PM on July 29, 2010 
Parabéns Cecilia......adorei seu site!!!!
beijosss e saudades!!!!
Reply Luciana
11:55 PM on July 29, 2010 
Muito interessante seu texto, Ci. Além dessas crianças de não terem referência da falta de horários, há outra questão interessante, é nas férias que você tem que ser criativo com seu tempo. Brincadeiras e atividades esgotam seu potencial antes das férias acabarem, aí a criança precisa buscar o que fazer. Acredito que isso também vai lhes fazer falta. Beijos
Reply Marcia Miyuki Matsubara
12:10 PM on August 5, 2010 
Cecília,
Férias escolares... Férias do trabalho ... Férias de tudo...
Quem não gosta??? Só aqueles que não conhecem o quanto são boas e necessárias para sí mesmo. Ah, benditas são as férias !!! Meus filhos sonham com a chegada delas, mesmo que seja para ficarem em casa, sem horários, sem rotinas, sem cobranças...
Somente nas férias, costumamos pegar um cineminha durante a semana, viajamos alguns dias, eles brincam no play até mais tarde, dormem e acordam sem horário... tudo sem stress, mas, com certeza felizes e com a energia recarregada para mais um semestre de obrigações, deveres e rotina.
Beijos
Reply aparecida
8:23 PM on March 14, 2011 
Parabens pelo texto. Realmente todo filho de Deus gosta e merece ficar de ferias.ja pensou uma criança ficar de janeiro a janeiro dentro de uma creche? É bom nem pensar.
Reply Olga
3:14 PM on January 11, 2013 
Agradeço suas palavrasCecília. Sou professora de ed. infantil e seu depoimento reforça o que eu e tantos colegas pensamos. Vejo bebês de apenas 1, 2 anos com rotina de horário e mochilinha nas costas que não faltam nem com chuva, nem adoentados... é triste, é preocupante.